O inventário do planeta em imagens fotográficas iniciou-se imediatamente após a divulgação do processo de daguerreótipo, generalizando-se no principio da década de 40 do século XIX, e utilizando também o calotipo, com negativos em papel, até ao principio dos anos 50. Mas foi com o processo de colódio húmido que a fotografia de viagens atingiu a sua plenitude apesar deste exigir placas de vidro de grande formato, sensibilizadas com sais de prata no próprio local onde eram expostas e processadas imediatamente, ainda húmidas. Com carroças, tendas e até barcos, em improvisados laboratórios ambulantes, os fotógrafos partiram na descoberta dos lugares mais longínquos, na fronteira do Oeste americano, nas travessias de África, da China até ao Japão.
Mas se a apetência pelas "notícias fotográficas" de todo o mundo era notável, as imagens que chegavam da Síria, do Líbano, da Palestina, da Arábia e, sobretudo, do Egipto, mereciam uma especial atenção. Grandes fotógrafos se instalaram no Cairo, abrindo agências em Paris e Londres para a venda das provas "exóticas" que iam colhendo, num negócio florescente durante décadas.
As práticas fotográficas no Egipto no século XIX constituíram um verdadeiro laboratório de ensaio das técnicas fotográficas. As condições climatéricas, a evolução política e os meios de transportes disponíveis condicionaram o trabalho dos primeiros fotógrafos que viajaram pelo Médio Oriente. As câmaras fotográficas de madeira, as utilizadas até ao final do século, eram particularmente sensíveis ao calor e às variações de humidade bem como à rudeza dos transportes.
Embora se pudesse encontrar à venda no Cairo e noutras cidades da região, a partir de 1850, os principais produtos químicos, placas e papéis fotográficos, a maior parte dos grandes viajantes levavam consigo a totalidade dos meios necessários. Na respectiva bagagem constava certamente uma tenda amarela, com suportes que eram montados no interior, com um peso normal de sete a dez kg. O espaço resultante da montagem deste equipamento teria no máximo dois a três m². Quando não fosse possível encontrar uma sombra protectora, e não deviam abundar, pode-se imaginar o forno em que os fotógrafos trabalhavam. Se juntarmos a este cenário os ventos carregados de poeiras e de areias, os insectos, a secagem rápida das emulsões devido à elevada temperatura e os vapores emanados pelos produtos químicos temos que concluir que era enorme a motivação que impeliu os seus autores a concretizar estas imagens e valorizá-las devidamente.
Dos temas então mais apreciados há que salientar todos os monumentos ou vestígios de culturas antigas, numa época em que a idade da Terra estava no centro das discussões científicas em torno da selecção natural e da origem do homem. A utilização da Fotografia pela Arqueologia foi imediata, e tiveram grande impacto num vasto espectro das classes sociais a contemplação de templos, representações humanas, testemunhos de cultos religiosos, da escrita, do quotidiano de culturas muito mais antigas e diferentes das então contemporâneas.
As imagens apresentadas nesta exposição encontram-se balizadas por duas vagens ao Oriente: a de Eça de Queiroz, quando da inauguração do Canal de Suez em 1869, e a de Leite de Vasconcelos, quando do Congresso de Egiptologia do Cairo, em 1909. Trata-se de uma selecção de imagens das colecções do Instituto dos Museus e da Conservação que exemplifica a grande aventura fotográfica do século XIX.